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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 3


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 1 e Parte 2)

Chegamos no final deste texto com uma questão ainda aberta. Porque muitos grupos, indivíduos e partidos que se reivindicam revolucionários insistem em apostar em uma via social-democrata como o PT, mesmo que criticamente, para estabelecer um terreno mais favorável à luta pela revolução? Será mesmo que esse apoio crítico é uma reação contra as ideias fascistas ou autoritaristas? Analisemos um pouco mais.

O voto crítico não é contra Bolsonaro
É muito interessante notar como que a figura do Bolsonaro faz tantas pessoas apoiarem o PT no segundo turno, mesmo que “criticamente”, mesmo que com um enorme desgosto. De fato, Bolsonaro representa tudo que há de retrógrado na humanidade, e isso faz essas pessoas apostarem no outro lado da moeda. Mas porque dar apoio ao outro lado da mesma moeda? Mesmo os partidos que acusam o PT de estar vinculado de corpo e alma ao capital apostam suas fichas na sua capacidade de frear a onda conservadora que Bolsonaro representa. Mas será que essas pessoas e grupos políticos estão dando um voto crítico no PT enquanto, de fato, uma última esperança contra o Bolsonaro e sua proposta autoritária de governo?
Voltemos, então, no tempo. Há exatos quatro anos, quando Dilma Rousseff disputava o segundo turno das eleições presidenciais contra Aécio Neves. Não havia, neste contexto, um risco iminente de voltarmos à ditadura, não haviam levantes fascistas, propostas autoritárias de governo e nem candidatos que demonstravam abertamente profunda admiração por figuras que fizeram história como torturadores. Mas mesmo assim, pessoas e organizações defenderam o mesmo argumento do voto crítico. É o caso da Esquerda Marxista, que afirmou que: "A tarefa de classe é derrotar Aécio e depois arrancar, nas ruas, as reivindicações. Ou o PT rompe com a burguesia ou vai pagar caro”, e também do pensador marxista José Paulo Netto, membro do PCB, quando disse que deveríamos votar na Dilma com um dedo no nariz e o outro na urna, apenas para impedir que o Aécio ganhasse.
Não era uma frente antifascista que motivava o voto crítico antes. Da mesma forma, não o é agora. É uma aposta sem sentido em o governo social-democrata “romper com a burguesia” e depois facilitar a luta revolucionária, como afirmaram em 2014. Apostam que um governo de “esquerda” no poder pavimentaria o caminho para a destruição de si mesmo. Uma ilusão total e uma falta de perspectiva radical.
A partir disso podemos nos perguntar, como que lutar sob um governo social-democrata seria melhor, já que, como apontou José Barata, “Os vários anos de hegemonia petista nas lutas sindicais, e mais tarde no governo federal, produziram toda uma geração de trabalhadoras e trabalhadores que são incapazes de conduzir suas próprias lutas”? Logo, a análise que fazemos é que grande parte desse discurso do voto crítico é reflexo desse amansamento que perdurou por mais de uma década em que o PT esteve no governo. Muitos dos militantes de aspiração revolucionária estão se acomodando, conformados com a situação política atual, gastando energias para manter a ordem democrática, esperando que um levante revolucionário consciente e ativo ressurja como uma fênix das cinzas de um movimento operário derrotado, mas que teve um passado glorioso de lutas e enfrentamentos diretos.
Existe ainda uma parcela de indivíduos que pensam a revolução como um horizonte possível, e não necessariamente defendem o voto crítico, demonstram um discurso também conformista quando afirmam que nosso papel é apenas estudar, enxergar as contradições, conhecer nosso inimigo, para nos prepararmos para uma possível revolução que está por vir. Este é o caso bastante comum de um marxismo acadêmico que há muito tempo se desvinculou totalmente de uma política de classes. Indiscutivelmente, responder a pergunta “o que fazer?” é tão difícil como dar a volta ao mundo em 80 dias em cima de um balão. Entretanto, por toda experiência histórica que o movimento operário já passou, podemos ter muito mais firmeza ao responder o que não fazer.
Sei que meio do caminho já é alguma coisa, sei que o menos pior pode ser escolhido no lugar da catástrofe, pois as condições concretas agem de forma brutal na vida de muitas pessoas, na mínima condição da sobrevivência. A questão é: até que ponto a social-democracia é menos pior que a extrema direita? É claro que não é correto afirmar que não exista diferença entre ambos, mas ambos defendem o mesmo capital, apenas de diferentes maneiras.
Apesar de todo esse apelo ao voto crítico, a cada eleição que passa, os votos brancos e nulos, bem como as abstenções, aumentam expressivamente no cenário eleitoral. Claro que isso não significa necessariamente uma revolução iminente, ou mesmo uma elevada consciência de classe, mas demonstra que muitos estão descontentes com as opções dadas. Inclusive, muitos são os relatos daqueles que foram votar, mas não quiseram perder seu tempo nas imensas filas das zonas eleitorais.
Por isso, precisamos relembrar que o espírito revolucionário deve combater de frente essa lógica conformada do “menos pior” ou do “melhor campo de batalha”. Ambos os lados nessa disputa de governo são nossos inimigos. Se não nos atermos a isto, poderemos estar fortalecendo àqueles que sempre lutaram para minar todo e qualquer movimento revolucionário na história. Correremos sempre o risco de, enquanto classe, ficarmos presos à velha consciência cidadã de eleitores, perdendo de vista que existem possibilidades além do horizonte eleitoral. Nossas energias, enquanto militantes, já estão gastas em demasia por vivermos nesse momento tão contrarrevolucionário de acirramento das condições de vida e de luta, por isso devemos nos preocupar com pautas verdadeiramente revolucionárias, que podem nos levar, de fato, a uma sociedade na qual o capital esteja superado!
Precisamos com urgência aprender a nos organizar enquanto movimento autônomo das burocracias do Estado, sindicados e partidos institucionais. Só através dessa auto-organização os trabalhadores podem ter uma chance de se libertar da ditadura do capital que nos atormenta, independente de qual regime político.


Nenhum voto é verdadeiramente crítico!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 2


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 1 e Parte 3)

No texto anterior, expus uma base para os argumentos deste segundo. A aparente polarização política brasileira e a defesa de uma democracia enquanto um campo de batalha mais suscetível à luta revolucionária faz muitos defenderem, neste 2º turno das eleições, o voto no PT, mesmo com o comprometimento escancarado que este partido já demonstrou com o capital e a burguesia que o representa. Tudo isso numa tentativa de nos manter num regime político democrático mais “livre”, no qual supostamente nossa liberdade de se revoltar contra o sistema seria mais respeitada. Tudo isso faz com que muitos daqueles que se afirmam revolucionários defendam, através do voto, a manutenção de um mundo invertido ao fim revolucionário: um regime político específico do capital. Vejamos mais de perto estes argumentos.

A posição dos que defendem o voto crítico
O grupo brasileiro chamado Esquerda Marxista, que até 2015 estava aliado ao PT, e apenas aí resolveu se distanciar por perceber tardiamente que se tratava de um partido “operário-burguês”, fez uma análise durante o primeiro turno das eleições deste ano defendendo que “Não somos por ‘qualquer um menos Bolsonaro’”. Resolveram então apoiar a candidatura do PSOL, mesmo analisando suas propostas como reformistas, como a taxação sobre grandes fortunas e dar oportunidades iguais a todos. Entretanto, no segundo turno, retornam ao “apoio” à candidatura do PT, mesmo sem concordar com seu plano de governo. Insistem em dizer que “Votaremos no PT, sem nenhuma confiança e combatendo o programa de Haddad e do PT, apenas para barrar Bolsonaro”, posição totalmente contraditória à anterior.
Essa estratégia é baseada no argumento de que é preciso saber qual inimigo combater primeiro. Afirmam que não é uma questão de um “mal menor”, mas de poder derrotar um dos inimigos primeiro (e este seria a extrema direita). Afirmam também que não votar no PT seria um erro histórico idêntico a quando “o Partido Comunista, sob orientação de Stalin, se recusou a fazer frente única com o Partido Socialdemocrata Alemão, a quem chamavam de ‘socialfascistas’, contra o nazismo” na década de 1930. Infelizmente o grupo Esquerda Marxista perde de vista todos os problemas que foram as frentes únicas da época. Essa estratégia stalinista (detalhe inclusive apontado por eles) tem um papel fundamental de tragar a luta revolucionária transformando-a em pautas reformistas da social-democracia, fazendo morrer os objetivos radicais, substituindo-os por lutas que nunca levarão à superação do capital, como a própria defesa da democracia.
Parece muito esdrúxulo essa reviravolta na argumentativa, mas isso aparenta ser mais normal no meio pseudo-revolucionário do que se imagina. No texto de um militante do PCB, Gabriel Fazzio, publicado em março de 2018, ele faz a defesa da participação dos comunistas no processo eleitoral. Traz uma citação fossilizada de Marx e Engels escrita para a Liga dos Comunistas para defender a propaganda revolucionária no processo eleitoral. Se perde em um raciocínio doutrinário de congelar as análises históricas. É claro que muito do que Marx e Engels analisaram em suas épocas ainda é totalmente válido. Mas precisamos distinguir o que mudou. A participação democrática nas eleições não rendeu nenhum bom fruto para o terreno da luta revolucionária. Ao contrário, quando a social-democracia teve finalmente uma chance de estar no poder na Alemanha, traiu todos os revolucionários, matando um punhado deles, como aconteceu com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Mesmo defendendo a participação dos comunistas nas eleições, Fazzio defende apenas a participação crítica e de perspectiva operária, negando, inclusive, a possibilidade de apoiar a social-democracia petista. Afirma também que num possível segundo turno onde só haja as opções típicas da política burguesa, nenhuma delas merece o apoio dos revolucionários, e o voto deve ser anulado ou abstido. Contudo, o Comitê Central do PCB lançou nota apoiando o voto crítico no PT neste segundo turno. Outros partidos também aderiram ao voto crítico, como o PSTU e o PSOL. Este último, mesmo passando todo o período do primeiro turno criticando o programa do PT, faz vistas grossas a tudo que disse depois que Haddad resolve incorporar algumas propostas do seu candidato em seu plano de governo.
Todos esses grupos estão amparados na ideia de que devemos derrotar Bolsonaro nas urnas e partir para a luta revolucionária após isso. Alguns com o argumento de que um governo fascista pode emergir dessas eleições. Outros não vão tão adiante nessa expectativa, mas mesmo assim enxergam a possibilidade de um governo autoritário a partir disso. Afirmam que será quase impossível lutar pelo fim do capital em um regime político ditatorial, de extrema direita, autoritário, no qual não poderemos sequer falar de comunismo. Insistem em dizer que o apoio ao PT é apenas uma medida de desespero para não deixar o “protofascista” chegar ao poder, como afirma um militante do PSOL em seu texto “Derrotar o ultraliberalismo, votar contra Bolsonaro e construir a Revolução Brasileira” Mas se olharmos para a história desses partidos defensores de uma participação comunista nas engrenagens do parlamento, veremos que deve existir outro motivo para apoiarem o PT com um voto crítico.
            Mas este é um tema que trataremos na terceira e última parte deste texto.




segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 1


Por Eric Garcia
Os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 2 e Parte 3)

Dizer que o Brasil está em perigo já virou lugar comum nessas eleições. “A luta agora é pela democracia”. Por isso, há um discurso de que precisamos votar no PT para a presidência, precisamos votar no seu candidato selecionado à nove dedos, pois, apesar de todos os problemas do PT, ele ainda luta pela democracia. Do outro lado, se Bolsonaro (PSL) ganhar as eleições, corremos um enorme risco de voltar à uma ditadura militar, onde não haverá mais a possibilidade de lutar pela própria revolução. Farei uma reflexão sobre esse dilema daqui para frente.
Com o intuito de trazer essa discussão à tona, pretendemos fazer uma série de três textos. Este primeiro tratando mais sobre a conjuntura política nacional, bem como a base dos argumentos sob a qual se sustenta a defesa do voto crítico. Já no segundo, tratarei mais de perto algumas posições e argumentações defendidas por grupos que se aproximam de algum modo, mesmo que distante, de posições revolucionárias presentes no Brasil. Por fim, no terceiro texto buscarei fazer uma análise dos motivos reais para a defesa do voto crítico e como isso representa a falência posições revolucionárias. 
Antes de iniciar, deixo claro que aponto, principalmente nas duas primeiras partes, apenas superficialmente algumas questões já aprofundadas na série de artigos que está sendo lançada neste mesmo jornal, principalmente no que se refere ao papel da social-democracia na ascensão de uma onda conservadora de extrema direita no Brasil e no mundo.


A conjuntura da atual divisão política brasileira
Bolsonaro apareceu como uma figura política inacreditável, quando ninguém parecia esperar, defendendo abertamente valores retrógrados que todos já conhecem. Ao mesmo tempo, por se posicionar, dentro do espectro político burguês, do lado oposto ao PT, Bolsonaro é considerado como “o salvador da pátria”, já que nos últimos anos o Brasil passou por uma série de problemas econômicos e o governo petista não conseguiu gerir com êxito o capital. Isso traz esperanças para muitas pessoas; mas é um pesadelo infame para muitas outras. Não é à toa que os dois candidatos mais bem votados no primeiro turno são também os com maior índice de rejeição. Isso polariza a disputa burguesa pelo cargo político de maior importância na república brasileira, dividindo os eleitores em “anti-petismo” e “anti-bolsonaro”.
Mas o leque de militância política pode ir muito mais além do que as opções políticas burguesas postas. Existe toda uma tradição de militantes revolucionários, comunistas ou anarquistas, que enxergam contradições insolúveis dentro desse modo de fazer política determinado pelo Estado capitalista. Entretanto, quando deveríamos, mais do que nunca, estar unidos neste caos político para combater todas essas ideologias, surge um discurso que atrai muitos daqueles que se colocam enquanto revolucionários. A defesa do voto crítico para não regredirmos na história.

Uma divisão não tão polarizada assim
Este embate entre ideologias de esquerda e direita não soluciona problema algum. A história nos mostra, por exemplo, que quando governos social-democratas estão no poder, ao enfrentar um momento de crise econômica, a ascensão de uma ideologia de extrema direita, até mesmo fascista, é uma consequência possível. Logo as diversas classes sociais colocam a culpa na direção do governo, e não na crise do capital, apontando que a solução seria virar a política nacional do avesso, dando espaço para políticos extremamente reacionários assumirem posições de destaque. Este é o caso atual do Brasil. Também foi o caso da Alemanha nazista.
É por este motivo que podemos supor que, mesmo que o PT (ou qualquer outro governo social-democrata) volte à liderança do Estado burguês, isso pode proporcionar um fortalecimento exponencial na ideologia de extrema direita. Esta é a contradição que gostaríamos de evidenciar. A social-democracia não pode salvar a sociedade de uma onda conservadora, uma vez que é ela própria que fortalece esta onda em tempos de crise, como o que estamos vivendo.

A democracia seria o nosso melhor campo de batalha?
O argumento do voto crítico defendido por alguns grupos que se posicionam próximos às posições revolucionárias (falaremos de alguns destes no próximo texto) se esbarra nessa contradição. Isso evidencia uma diferença de análise que os apologéticos ao voto crítico fazem do que seria uma democracia.
A democracia é, muitas vezes, vista como algo puro, independente da realidade social em que está inserida. Por isso é muito comum ouvirmos afirmações como “em uma verdadeira democracia as coisas ocorreriam diferente”, ou que “em uma verdadeira democracia o poder emana verdadeiramente do povo”, e que hoje possuímos uma democracia apenas representativa, uma “democracia pela metade”. Essa ilusão com este regime político democrático nos impede de enxergamos as bases reais que sustentam sua existência. E este é o principal motivo que faz muitos indivíduos com aspirações revolucionárias caírem na armadilha do voto crítico.
Existe um medo, totalmente compreensível, de voltarmos a uma ditadura nos moldes da que tivemos após o golpe de 1964. Entretanto, não podemos deixar de salientar que essa ditadura jamais cessou. É só voltarmos nossos olhos para a realidade da maioria dos trabalhadores do país, que, vivendo em uma situação de calamidade, sentem na pele uma realidade que expressa muito bem as estratégias de controle da ditadura militar brasileira: intervenção militar nas favelas, ameaças e torturas policiais, prisão não justificada, assassinato e desaparecimento dos corpos, desocupação residencial. A lista não para por aí. O medo, então, é de vivermos o que muitos já vivem cotidianamente. Além disso, também possuímos o medo de que nossas vidas econômicas se tornem como a desses trabalhadores: sem direitos como salário mínimo, jornada de trabalho máxima, férias, 13º salário, instabilidade constante, total subordinação às condições econômicas.
O que precisamos saber é que, enquanto revolucionários, não podemos nos curvar ao terror, ao risco iminente de vivermos novamente em um regime ditatorial. Sem sombra de dúvidas, a militância deve se comportar diferente, sob estratégias diferentes. Nossa chama pela revolução não deve jamais apagar e se tornar cinzas, mas sim se manter acesa independente de qualquer situação política.
Esse debate sobre a democracia precisaria de muito mais espaço para desenvolvê-lo, o que tornaria este texto muito maior do que o planejado, e este não é nosso objetivo aqui. Veremos no próximo texto os argumentos mais recorrentes utilizados para a defesa do voto crítico, citando alguns grupos que, apesar de flertarem pontualmente com posições revolucionárias, acabam se protegendo sob um domo de posições reformistas.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O DIREITO À MORADIA PARA A CLASSE TRABALHADORA

Sobre a desocupação forçada no bairro Nova Cidade em Vitória da Conquista


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor

Na manhã do dia 04 dezembro de 2017, os trabalhadores de Vitória da Conquista foram surpreendidos pela ação bárbara do despejo de moradores da ocupação existente no bairro Nova Cidade. A polícia militar em conjunto com prefeitura, e amparados pela decisão da 1ª Vara da Fazenda Pública, realizou a ação truculenta de despejo dos moradores, sob bombas de efeito moral e balas de borracha. A justificativa dada pela prefeitura é a necessidade da manutenção da reserva ambiental da serra do Periperi, na qual o bairro se situa. Contudo, essa ação, além de bárbara, é repleta de contradições. Para entender melhor a situação, é necessário, inicialmente, contextualizar historicamente o processo de urbanização da localidade.
A ocupação no Nova Cidade foi iniciada em meados da década de 1980 a partir da ação dos próprios moradores. Estes vieram para Conquista de cidades vizinhas e até mesmo do campo em busca de melhores condições de vida. No entanto, não se pode dizer que esse objetivo foi alcançado com grande êxito. Inicialmente os trabalhadores que para lá migraram apenas construíram barracos de lona, sobrevivendo de trabalhos precários e informais. Depois de muitos anos de trabalho, alguns deles puderam erguer uma construção mais sólida.
O Estado sempre se mostrou verdadeiramente apático em relação aos ocupados, não somente agora, negando qualquer assistência às pessoas despejadas do Nova Cidade, como em toda sua história, negando o fornecimento de estruturas mínimas que fazem parte de todo “direito cidadão”, como pavimentação, esgotamento sanitário, água encanada, energia elétrica, transporte, lazer etc. Contudo, apesar de não ser o paraíso na terra, aos poucos, muitos trabalhadores que não tinham onde morar encontraram no Nova Cidade, bem como em tantos outros lugares na periferia de Conquista, um lugar para se viver.
Muitos elementos que surgem desse fato precisam ser discutidos. Vamos tentar apontar alguns deles brevemente neste texto.
O primeiro talvez seja o mais evidente. Nenhuma ilusão ainda deve ser nutrida por quem espera que o Estado seja uma estrutura da sociedade civil que tem o dever de garantir direitos e benefícios aos seus cidadãos. Na menor oportunidade ele não pestanejará em ser o mais truculento possível para garantir as regalias de uma classe privilegiada sob a exploração de outra (veremos mais à frente o porquê que esta desocupação se encaixa perfeitamente no caso). A prefeitura de Conquista alega “defender o Parque da degradação ambiental, preservando-o para as futuras gerações”, sendo que mal se importa com as gerações presentes de trabalhadores que tiveram suas casas demolidas, seus filhos e idosos agredidos, sua mínima garantia de sobrevivência destruída em um piscar de olhos sob a pá de um trator.



 Como se não bastasse a total desumanização em trocar as casas de trabalhadores por um discurso “ecológico”, esse mesmo Estado se omite sobre a construção dos condomínios que também ficam nas redondezas, culpabilizando gestões anteriores. Também se omite sobre a degradação do rio Verruga, que cruza a cidade, ou sobre a degradação da mata nativa pelas diversas fazendas no campo do município. Contudo, a defesa de uma ecologia sustentável nunca foi o alvo dessa empreitada macabra. O que na verdade se mostra é a velha política de “higienização” da cidade, pela qual botam os trabalhadores mais pobres para debaixo do tapete para privilegiar a estética da vizinhança. Expulsam sujeitos socialmente “indesejáveis” de suas casas, sem qualquer aviso prévio, para que não apareçam na janela das casas dos bairros vizinhos. Uma total inversão de valores.
Em tantos outros lugares podemos encontrar mais casos da higienização das cidades. E não são poucos, se espalham por todo Brasil, e também pelo mundo inteiro. Não é um fenômeno local, mas algo que está generalizado no modo como o capital opera. Algumas vezes essas políticas acontecem de forma mais sutil, com a expansão urbana e pela valorização dos imóveis, por exemplo, em que muitos moradores resolvem vender suas casas e migrar para lugares mais distantes, nas bordas da cidade. Mas as vezes a marginalização ocorre pelos atos mais hediondos possíveis, como é o caso da desocupação forçada no Nova Cidade em Conquista pela Base Comunitária de Segurança, unidade policial inspirada na UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio de Janeiro. Ações desse setor da polícia militar, bem como atividades militares parecidas ocorreram em outros lugares, como no massacre da Candelária em 1993 ou na desocupação dos indígenas da Aldeia Maracanã em 2013 no Rio de Janeiro, ou das atividades da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) em todo o estado do Rio. Algumas vezes os próprios agentes da prefeitura e empresas terceirizadas praticam essas agressões, como é o caso da prefeitura de São Paulo que com uso de carros pipa e jatos d’água gelada em pleno inverno expulsou os moradores de rua enquanto ainda dormiam sob o pretexto de estar limpando o chão a praça, em 2017.



A legalidade em que esses processos se amparam também se revela totalmente contra os trabalhadores e trabalhadoras. Essa ainda é uma ilusão recorrente na nossa sociedade: o que é certo é a lei. Muitos parecem esquecer que a lei é feita por indivíduos que estão em posições privilegiadas para tal, e ao fazê-las, a recheiam com seus interesses e dos interesses daqueles que representam: as classes dominantes. É o que pode-se perceber na fala do radialista do programa “Redação Brasil”, quando é dito que “dessa vez a prefeitura [de Conquista] fez certo, ela tem a obrigação de ordenar e pra isso tem que ter uma estratégia, e me parece que dessa vez procurou a justiça, através da polícia, não foi só os funcionários da prefeitura como foi da última vez, que foi aquela coisa horrorosa”. Para o radialista fanático às leis, a “coisa horrorosa” é apenas não ter a permissão da justiça. Ele não é capaz de ver que a lei apenas serve à desumanização da imensa maioria para o bem da minoria.
Outro elemento que merece destaque é sobre o papel da polícia na sociedade capitalista. Sobre este tema há uma publicação no Jornal Faísca sobre o assunto, por isso não nos delongaremos. Este órgão nada mais é do que o braço armado do Estado. Logo, é também o braço armado das classes dominantes. Não servem essencialmente para proteger as pessoas, mas sim para proteger a propriedade privada e seus detentores. Mas não a propriedade dos barracos de lona, e sim a propriedade privada dos meios de produção; ou seja, mais uma vez, a propriedade das classes que dominam. A polícia não se importa para quem esteja na sua frente, quatro pessoas foram feridas no processo dessa desocupação em Conquista, entre eles uma criança e uma idosa.



Todas essas questões apenas nos fazem concluir que não estamos caminhando para uma barbárie social, mas já estamos nela. Os caminhos apontados por Engels na segunda metade do século 19, “socialismo ou barbárie” se mostram mais evidentes do que antes, e devemos percorrer um caminho difícil para nos livrarmos da segunda opção. Devemos buscar formas de luta pelas quais a classe operária organizada autonomamente possa abolir de uma vez por todas a propriedade privada dos meios de produção. Ela deve tomar e gerir a produção por ela mesma para acabar com toda forma de exploração pela classe burguesa (Os motivos que fazem dessa classe um fundamento para essa revolução foram expostos num texto que escrevi anteriormente para este mesmo jornal).
Enquanto parte da sociedade vira as costas para aqueles trabalhadores e trabalhadoras que estão sendo desocupados no bairro Nova Cidade, muitos deles resistem aos ataques violentos da polícia e do Estado. Alguns barracos de lona já foram reconstruídos e a indignação ferve no sangue desses moradores. Enquanto isso, os meios de comunicação com o rabo preso à atual gestão municipal justificam a invasão dizendo que “Antes da desocupação a Secretaria de Desenvolvimento Social fez um detalhado levantamento e não encontrou ninguém, no perfil para receber o aluguel social. A maioria do invasores já tinha vendido os terrenos ocupados segundo levantamento da Prefeitura”.
Contudo é preciso observar que, além desses programas terem uma burocracia interminável para poder enquadrar as pessoas de baixa renda no “perfil” correto, essa afirmação vai totalmente de encontro com o fato de que há resistência dos moradores que arriscam suas vidas por suas moradas. Em que universo pessoas que arriscam suas vidas não se enquadram em um perfil que necessita de moradia? Não é de se surpreender uma notícia dessas, visto que a Sr.ª Secretária do desenvolvimento social, Irma Lemos, é a atual vice prefeita da cidade.
O mesmo blog ainda tem coragem de terminar sua notícia dizendo que “A Prefeitura cumpre a nobre missão de manter o pouco que restou da vegetação da Serra do Periperi”. Não restam dúvidas do total comprometimento ideológico existente nessa relação, ainda mais se tratando do veículo de comunicação que pertence ao atual prefeito da cidade, o Sr. Herzem Gusmão.
Não há mais esperança nesse modelo de sociedade.
Toda solidariedade aos trabalhadores de todo o mundo sem uma moradia. Nossa luta não tem fronteiras!