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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 3


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 1 e Parte 2)

Chegamos no final deste texto com uma questão ainda aberta. Porque muitos grupos, indivíduos e partidos que se reivindicam revolucionários insistem em apostar em uma via social-democrata como o PT, mesmo que criticamente, para estabelecer um terreno mais favorável à luta pela revolução? Será mesmo que esse apoio crítico é uma reação contra as ideias fascistas ou autoritaristas? Analisemos um pouco mais.

O voto crítico não é contra Bolsonaro
É muito interessante notar como que a figura do Bolsonaro faz tantas pessoas apoiarem o PT no segundo turno, mesmo que “criticamente”, mesmo que com um enorme desgosto. De fato, Bolsonaro representa tudo que há de retrógrado na humanidade, e isso faz essas pessoas apostarem no outro lado da moeda. Mas porque dar apoio ao outro lado da mesma moeda? Mesmo os partidos que acusam o PT de estar vinculado de corpo e alma ao capital apostam suas fichas na sua capacidade de frear a onda conservadora que Bolsonaro representa. Mas será que essas pessoas e grupos políticos estão dando um voto crítico no PT enquanto, de fato, uma última esperança contra o Bolsonaro e sua proposta autoritária de governo?
Voltemos, então, no tempo. Há exatos quatro anos, quando Dilma Rousseff disputava o segundo turno das eleições presidenciais contra Aécio Neves. Não havia, neste contexto, um risco iminente de voltarmos à ditadura, não haviam levantes fascistas, propostas autoritárias de governo e nem candidatos que demonstravam abertamente profunda admiração por figuras que fizeram história como torturadores. Mas mesmo assim, pessoas e organizações defenderam o mesmo argumento do voto crítico. É o caso da Esquerda Marxista, que afirmou que: "A tarefa de classe é derrotar Aécio e depois arrancar, nas ruas, as reivindicações. Ou o PT rompe com a burguesia ou vai pagar caro”, e também do pensador marxista José Paulo Netto, membro do PCB, quando disse que deveríamos votar na Dilma com um dedo no nariz e o outro na urna, apenas para impedir que o Aécio ganhasse.
Não era uma frente antifascista que motivava o voto crítico antes. Da mesma forma, não o é agora. É uma aposta sem sentido em o governo social-democrata “romper com a burguesia” e depois facilitar a luta revolucionária, como afirmaram em 2014. Apostam que um governo de “esquerda” no poder pavimentaria o caminho para a destruição de si mesmo. Uma ilusão total e uma falta de perspectiva radical.
A partir disso podemos nos perguntar, como que lutar sob um governo social-democrata seria melhor, já que, como apontou José Barata, “Os vários anos de hegemonia petista nas lutas sindicais, e mais tarde no governo federal, produziram toda uma geração de trabalhadoras e trabalhadores que são incapazes de conduzir suas próprias lutas”? Logo, a análise que fazemos é que grande parte desse discurso do voto crítico é reflexo desse amansamento que perdurou por mais de uma década em que o PT esteve no governo. Muitos dos militantes de aspiração revolucionária estão se acomodando, conformados com a situação política atual, gastando energias para manter a ordem democrática, esperando que um levante revolucionário consciente e ativo ressurja como uma fênix das cinzas de um movimento operário derrotado, mas que teve um passado glorioso de lutas e enfrentamentos diretos.
Existe ainda uma parcela de indivíduos que pensam a revolução como um horizonte possível, e não necessariamente defendem o voto crítico, demonstram um discurso também conformista quando afirmam que nosso papel é apenas estudar, enxergar as contradições, conhecer nosso inimigo, para nos prepararmos para uma possível revolução que está por vir. Este é o caso bastante comum de um marxismo acadêmico que há muito tempo se desvinculou totalmente de uma política de classes. Indiscutivelmente, responder a pergunta “o que fazer?” é tão difícil como dar a volta ao mundo em 80 dias em cima de um balão. Entretanto, por toda experiência histórica que o movimento operário já passou, podemos ter muito mais firmeza ao responder o que não fazer.
Sei que meio do caminho já é alguma coisa, sei que o menos pior pode ser escolhido no lugar da catástrofe, pois as condições concretas agem de forma brutal na vida de muitas pessoas, na mínima condição da sobrevivência. A questão é: até que ponto a social-democracia é menos pior que a extrema direita? É claro que não é correto afirmar que não exista diferença entre ambos, mas ambos defendem o mesmo capital, apenas de diferentes maneiras.
Apesar de todo esse apelo ao voto crítico, a cada eleição que passa, os votos brancos e nulos, bem como as abstenções, aumentam expressivamente no cenário eleitoral. Claro que isso não significa necessariamente uma revolução iminente, ou mesmo uma elevada consciência de classe, mas demonstra que muitos estão descontentes com as opções dadas. Inclusive, muitos são os relatos daqueles que foram votar, mas não quiseram perder seu tempo nas imensas filas das zonas eleitorais.
Por isso, precisamos relembrar que o espírito revolucionário deve combater de frente essa lógica conformada do “menos pior” ou do “melhor campo de batalha”. Ambos os lados nessa disputa de governo são nossos inimigos. Se não nos atermos a isto, poderemos estar fortalecendo àqueles que sempre lutaram para minar todo e qualquer movimento revolucionário na história. Correremos sempre o risco de, enquanto classe, ficarmos presos à velha consciência cidadã de eleitores, perdendo de vista que existem possibilidades além do horizonte eleitoral. Nossas energias, enquanto militantes, já estão gastas em demasia por vivermos nesse momento tão contrarrevolucionário de acirramento das condições de vida e de luta, por isso devemos nos preocupar com pautas verdadeiramente revolucionárias, que podem nos levar, de fato, a uma sociedade na qual o capital esteja superado!
Precisamos com urgência aprender a nos organizar enquanto movimento autônomo das burocracias do Estado, sindicados e partidos institucionais. Só através dessa auto-organização os trabalhadores podem ter uma chance de se libertar da ditadura do capital que nos atormenta, independente de qual regime político.


Nenhum voto é verdadeiramente crítico!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 2


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 1 e Parte 3)

No texto anterior, expus uma base para os argumentos deste segundo. A aparente polarização política brasileira e a defesa de uma democracia enquanto um campo de batalha mais suscetível à luta revolucionária faz muitos defenderem, neste 2º turno das eleições, o voto no PT, mesmo com o comprometimento escancarado que este partido já demonstrou com o capital e a burguesia que o representa. Tudo isso numa tentativa de nos manter num regime político democrático mais “livre”, no qual supostamente nossa liberdade de se revoltar contra o sistema seria mais respeitada. Tudo isso faz com que muitos daqueles que se afirmam revolucionários defendam, através do voto, a manutenção de um mundo invertido ao fim revolucionário: um regime político específico do capital. Vejamos mais de perto estes argumentos.

A posição dos que defendem o voto crítico
O grupo brasileiro chamado Esquerda Marxista, que até 2015 estava aliado ao PT, e apenas aí resolveu se distanciar por perceber tardiamente que se tratava de um partido “operário-burguês”, fez uma análise durante o primeiro turno das eleições deste ano defendendo que “Não somos por ‘qualquer um menos Bolsonaro’”. Resolveram então apoiar a candidatura do PSOL, mesmo analisando suas propostas como reformistas, como a taxação sobre grandes fortunas e dar oportunidades iguais a todos. Entretanto, no segundo turno, retornam ao “apoio” à candidatura do PT, mesmo sem concordar com seu plano de governo. Insistem em dizer que “Votaremos no PT, sem nenhuma confiança e combatendo o programa de Haddad e do PT, apenas para barrar Bolsonaro”, posição totalmente contraditória à anterior.
Essa estratégia é baseada no argumento de que é preciso saber qual inimigo combater primeiro. Afirmam que não é uma questão de um “mal menor”, mas de poder derrotar um dos inimigos primeiro (e este seria a extrema direita). Afirmam também que não votar no PT seria um erro histórico idêntico a quando “o Partido Comunista, sob orientação de Stalin, se recusou a fazer frente única com o Partido Socialdemocrata Alemão, a quem chamavam de ‘socialfascistas’, contra o nazismo” na década de 1930. Infelizmente o grupo Esquerda Marxista perde de vista todos os problemas que foram as frentes únicas da época. Essa estratégia stalinista (detalhe inclusive apontado por eles) tem um papel fundamental de tragar a luta revolucionária transformando-a em pautas reformistas da social-democracia, fazendo morrer os objetivos radicais, substituindo-os por lutas que nunca levarão à superação do capital, como a própria defesa da democracia.
Parece muito esdrúxulo essa reviravolta na argumentativa, mas isso aparenta ser mais normal no meio pseudo-revolucionário do que se imagina. No texto de um militante do PCB, Gabriel Fazzio, publicado em março de 2018, ele faz a defesa da participação dos comunistas no processo eleitoral. Traz uma citação fossilizada de Marx e Engels escrita para a Liga dos Comunistas para defender a propaganda revolucionária no processo eleitoral. Se perde em um raciocínio doutrinário de congelar as análises históricas. É claro que muito do que Marx e Engels analisaram em suas épocas ainda é totalmente válido. Mas precisamos distinguir o que mudou. A participação democrática nas eleições não rendeu nenhum bom fruto para o terreno da luta revolucionária. Ao contrário, quando a social-democracia teve finalmente uma chance de estar no poder na Alemanha, traiu todos os revolucionários, matando um punhado deles, como aconteceu com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Mesmo defendendo a participação dos comunistas nas eleições, Fazzio defende apenas a participação crítica e de perspectiva operária, negando, inclusive, a possibilidade de apoiar a social-democracia petista. Afirma também que num possível segundo turno onde só haja as opções típicas da política burguesa, nenhuma delas merece o apoio dos revolucionários, e o voto deve ser anulado ou abstido. Contudo, o Comitê Central do PCB lançou nota apoiando o voto crítico no PT neste segundo turno. Outros partidos também aderiram ao voto crítico, como o PSTU e o PSOL. Este último, mesmo passando todo o período do primeiro turno criticando o programa do PT, faz vistas grossas a tudo que disse depois que Haddad resolve incorporar algumas propostas do seu candidato em seu plano de governo.
Todos esses grupos estão amparados na ideia de que devemos derrotar Bolsonaro nas urnas e partir para a luta revolucionária após isso. Alguns com o argumento de que um governo fascista pode emergir dessas eleições. Outros não vão tão adiante nessa expectativa, mas mesmo assim enxergam a possibilidade de um governo autoritário a partir disso. Afirmam que será quase impossível lutar pelo fim do capital em um regime político ditatorial, de extrema direita, autoritário, no qual não poderemos sequer falar de comunismo. Insistem em dizer que o apoio ao PT é apenas uma medida de desespero para não deixar o “protofascista” chegar ao poder, como afirma um militante do PSOL em seu texto “Derrotar o ultraliberalismo, votar contra Bolsonaro e construir a Revolução Brasileira” Mas se olharmos para a história desses partidos defensores de uma participação comunista nas engrenagens do parlamento, veremos que deve existir outro motivo para apoiarem o PT com um voto crítico.
            Mas este é um tema que trataremos na terceira e última parte deste texto.




segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A CRÍTICA DO VOTO CRÍTICO – PARTE 1


Por Eric Garcia
Os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor
(Ver também Parte 2 e Parte 3)

Dizer que o Brasil está em perigo já virou lugar comum nessas eleições. “A luta agora é pela democracia”. Por isso, há um discurso de que precisamos votar no PT para a presidência, precisamos votar no seu candidato selecionado à nove dedos, pois, apesar de todos os problemas do PT, ele ainda luta pela democracia. Do outro lado, se Bolsonaro (PSL) ganhar as eleições, corremos um enorme risco de voltar à uma ditadura militar, onde não haverá mais a possibilidade de lutar pela própria revolução. Farei uma reflexão sobre esse dilema daqui para frente.
Com o intuito de trazer essa discussão à tona, pretendemos fazer uma série de três textos. Este primeiro tratando mais sobre a conjuntura política nacional, bem como a base dos argumentos sob a qual se sustenta a defesa do voto crítico. Já no segundo, tratarei mais de perto algumas posições e argumentações defendidas por grupos que se aproximam de algum modo, mesmo que distante, de posições revolucionárias presentes no Brasil. Por fim, no terceiro texto buscarei fazer uma análise dos motivos reais para a defesa do voto crítico e como isso representa a falência posições revolucionárias. 
Antes de iniciar, deixo claro que aponto, principalmente nas duas primeiras partes, apenas superficialmente algumas questões já aprofundadas na série de artigos que está sendo lançada neste mesmo jornal, principalmente no que se refere ao papel da social-democracia na ascensão de uma onda conservadora de extrema direita no Brasil e no mundo.


A conjuntura da atual divisão política brasileira
Bolsonaro apareceu como uma figura política inacreditável, quando ninguém parecia esperar, defendendo abertamente valores retrógrados que todos já conhecem. Ao mesmo tempo, por se posicionar, dentro do espectro político burguês, do lado oposto ao PT, Bolsonaro é considerado como “o salvador da pátria”, já que nos últimos anos o Brasil passou por uma série de problemas econômicos e o governo petista não conseguiu gerir com êxito o capital. Isso traz esperanças para muitas pessoas; mas é um pesadelo infame para muitas outras. Não é à toa que os dois candidatos mais bem votados no primeiro turno são também os com maior índice de rejeição. Isso polariza a disputa burguesa pelo cargo político de maior importância na república brasileira, dividindo os eleitores em “anti-petismo” e “anti-bolsonaro”.
Mas o leque de militância política pode ir muito mais além do que as opções políticas burguesas postas. Existe toda uma tradição de militantes revolucionários, comunistas ou anarquistas, que enxergam contradições insolúveis dentro desse modo de fazer política determinado pelo Estado capitalista. Entretanto, quando deveríamos, mais do que nunca, estar unidos neste caos político para combater todas essas ideologias, surge um discurso que atrai muitos daqueles que se colocam enquanto revolucionários. A defesa do voto crítico para não regredirmos na história.

Uma divisão não tão polarizada assim
Este embate entre ideologias de esquerda e direita não soluciona problema algum. A história nos mostra, por exemplo, que quando governos social-democratas estão no poder, ao enfrentar um momento de crise econômica, a ascensão de uma ideologia de extrema direita, até mesmo fascista, é uma consequência possível. Logo as diversas classes sociais colocam a culpa na direção do governo, e não na crise do capital, apontando que a solução seria virar a política nacional do avesso, dando espaço para políticos extremamente reacionários assumirem posições de destaque. Este é o caso atual do Brasil. Também foi o caso da Alemanha nazista.
É por este motivo que podemos supor que, mesmo que o PT (ou qualquer outro governo social-democrata) volte à liderança do Estado burguês, isso pode proporcionar um fortalecimento exponencial na ideologia de extrema direita. Esta é a contradição que gostaríamos de evidenciar. A social-democracia não pode salvar a sociedade de uma onda conservadora, uma vez que é ela própria que fortalece esta onda em tempos de crise, como o que estamos vivendo.

A democracia seria o nosso melhor campo de batalha?
O argumento do voto crítico defendido por alguns grupos que se posicionam próximos às posições revolucionárias (falaremos de alguns destes no próximo texto) se esbarra nessa contradição. Isso evidencia uma diferença de análise que os apologéticos ao voto crítico fazem do que seria uma democracia.
A democracia é, muitas vezes, vista como algo puro, independente da realidade social em que está inserida. Por isso é muito comum ouvirmos afirmações como “em uma verdadeira democracia as coisas ocorreriam diferente”, ou que “em uma verdadeira democracia o poder emana verdadeiramente do povo”, e que hoje possuímos uma democracia apenas representativa, uma “democracia pela metade”. Essa ilusão com este regime político democrático nos impede de enxergamos as bases reais que sustentam sua existência. E este é o principal motivo que faz muitos indivíduos com aspirações revolucionárias caírem na armadilha do voto crítico.
Existe um medo, totalmente compreensível, de voltarmos a uma ditadura nos moldes da que tivemos após o golpe de 1964. Entretanto, não podemos deixar de salientar que essa ditadura jamais cessou. É só voltarmos nossos olhos para a realidade da maioria dos trabalhadores do país, que, vivendo em uma situação de calamidade, sentem na pele uma realidade que expressa muito bem as estratégias de controle da ditadura militar brasileira: intervenção militar nas favelas, ameaças e torturas policiais, prisão não justificada, assassinato e desaparecimento dos corpos, desocupação residencial. A lista não para por aí. O medo, então, é de vivermos o que muitos já vivem cotidianamente. Além disso, também possuímos o medo de que nossas vidas econômicas se tornem como a desses trabalhadores: sem direitos como salário mínimo, jornada de trabalho máxima, férias, 13º salário, instabilidade constante, total subordinação às condições econômicas.
O que precisamos saber é que, enquanto revolucionários, não podemos nos curvar ao terror, ao risco iminente de vivermos novamente em um regime ditatorial. Sem sombra de dúvidas, a militância deve se comportar diferente, sob estratégias diferentes. Nossa chama pela revolução não deve jamais apagar e se tornar cinzas, mas sim se manter acesa independente de qualquer situação política.
Esse debate sobre a democracia precisaria de muito mais espaço para desenvolvê-lo, o que tornaria este texto muito maior do que o planejado, e este não é nosso objetivo aqui. Veremos no próximo texto os argumentos mais recorrentes utilizados para a defesa do voto crítico, citando alguns grupos que, apesar de flertarem pontualmente com posições revolucionárias, acabam se protegendo sob um domo de posições reformistas.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

EDUCAÇÃO E LUTA POLÍTICA



Sobre a luta contra o fechamento do Colégio Estadual Nilton Gonçalves

por José Barata
As opiniões presentes neste texto são de responsabilidade do autor

Nas últimas semanas temos acompanhado alguma mobilização contra o anunciado fechamento do Colégio Estadual Nilton Gonçalves, localizado no município de Vitória da Conquista. Já faz um bom tempo que a instituição sofria com problemas derivados da má gestão e do abandono por parte do governo da Bahia, que, dentre outras coisas, há quase dois anos não paga o aluguel do prédio onde funciona a escola. O colégio atende a população dos bairros Ibirapuera, Alvorada, Nenzinha Santos e Bruno Barcelar. Com o fechamento, estes estudantes serão remanejados para instituições localizadas em bairros mais distantes, dificultando o acesso daqueles que terão que recorrer ao transporte coletivo. Um aumento no orçamento destas famílias que contribui para a evasão escolar. Na quarta-feira do dia 29 de novembro alguns estudantes e professores do colégio organizaram um ato público contra o descaso do governo estadual com a situação do Nilton Gonçalves.  O ato partiu do Teatro Municipal Carlos Jeová em direção à Praça Tancredo Neves, onde se localiza a secretaria do Núcleo Regional de Educação, onde exigiram uma postura do diretor do núcleo, Ricardo Costa.

Na semana passada os camaradas do Coletivo Contra Ponto Cultural publicaram uma nota de repúdio ao fechamento da escola. O coletivo atribui a postura do governo estadual ao seu alinhamento com as políticas neoliberais, na qual a educação é tratada como uma mercadoria. Dentre outras coisas, temem que a provável evasão escolar provocada pelo fechamento do Nilton lance os estudantes em uma situação de vulnerabilidade social. Concluem que “a falta de acesso à educação é um dos grandes responsáveis pelo aumento da violência” e fazem um chamado para que os estudantes, pais, funcionários e moradores resistam ao fechamento da escola. Muito embora não esteja explicito, a nota está carregada de uma expectativa positiva em relação a escola. Espera-se que o Estado dê um tratamento diferente à instituição, da mesma forma espera-se que a educação não seja transformada em mercadoria nos marcos da sociedade atual.  Espera-se que a escola promova o “esclarecimento” dos alunos e que este seja o caminho para uma vida digna, tal como se acreditava no movimento iluminista. Tudo isso traz à tona o questionamento sobre qual é a verdadeira função da escola em nossa sociedade capitalista e o que representa a luta dos estudantes da periferia em se manter dentro dela.


A luta contra o fechamento do Colégio Estadual Nilton Gonçalves, em termos práticos, significa a luta de parcelas dos filhos e filhas da classe trabalhadora para se manterem minimamente qualificados para o mercado de trabalho. Naturalmente, a luta pela própria existência deve sempre ser considerada uma luta digna em termos gerais, muito embora ela nem sempre caminhe para uma solução definitiva dos problemas enfrentados pela coletividade dos trabalhadores. Ao contrário, as relações sociais capitalistas tendem a levar os indivíduos a buscarem soluções meramente individuais para os problemas sociais que enfrentam.  

Independentemente de suas vontades, aqueles estudantes que se organizarem coletivamente para garantir a conclusão dos seus estudos na escola, serão jogados uns contra os outros na competição pelas vagas de emprego num futuro próximo. Inevitavelmente, alguns terão sucesso enquanto outros serão reaproveitados em empregos com exigências curriculares abaixo de sua formação escolar. Formarão o melhor exército de reserva possível para o mercado de trabalho, disponíveis para serem utilizados apenas quando for necessário para as necessidades do capital[i].

Manter a mão de obra minimamente qualificada, com acesso a uma educação ainda que precária, não é nenhuma garantia de que serão absorvidos pelo mercado de trabalho, mas dará uma oportunidade aos empregadores para que escolham os mais qualificados entre aqueles que disputam vagas de emprego limitadas pela demanda do mercado. Portanto, uma maior escolarização dos jovens não significa que estes estarão livres da criminalidade. Na verdade, a tragédia é que muitos deles optam pelo crime justamente por perceberem a falácia do discurso que aponta a escola como a salvação da lavoura. A função da escola em nossa sociedade atual não é trazer uma vida digna para todos, mas preparar o melhor mercado de trabalho possível e formar os cidadãos adequados para o sistema político e econômico do capital.


É natural que os professores busquem um sentido ético em sua profissão. Gostam de considerar a si próprios enquanto “guardiões do conhecimento” e “formadores de opinião”, mas no fim das contas sua função serve principalmente para criar esse imenso exército de mão de obra. Não devemos encarar com romantismo essa realidade. Ainda que em seu íntimo alguns professores desejem remar contra a corrente e contribuir para a formação de um pensamento crítico, é impossível deter a força imponente da estrutura escolar por dentro da própria escola. Ela é basicamente orientada para formar mão de obra. Alguns professores podem até fazer uma pequena diferença ao promover certas reflexões em sala da aula. Todavia, eles não têm o poder de alterar a estrutura da escola, a grade curricular, os métodos gerais de ensino ou até de abolir os modelos gerais de avaliação que servem basicamente para enquadrar os estudantes em padrões estatísticos úteis para os critérios de seleção do mercado. 

Os estudantes, por sua vez, são condicionados a buscar o conhecimento escolar enquanto uma maneira de passar pelas etapas necessárias para construir uma carreira estável. Esta necessidade os pressiona a frequentar a instituição de ensino. Poucos são aqueles que realizam essa busca por uma vontade verdadeiramente pessoal ou por uma realização humana. Pelo contrário, se desumanizam em um processo que os transforma em um tipo de mercadoria: força de trabalho. Os estudantes de qualquer escola são obrigados a aceitar a divisão das séries e a grade curricular de cada uma. São forçados a decorar conteúdos mesmo que não enxerguem nisso qualquer significado.

Quem já esteve dentro de uma sala de aula com certeza sabe o quanto a maioria dos estudantes se sente desmotivada a estar dentro daquelas quatro paredes. A imensa maioria estuda para as avaliações na certeza de que quase todo aquele volume de informações será esquecido. No fim das contas, o maior saldo para sua formação, depois de tantos anos, será aprender a obedecer às normas impostas pelas instituições, se acostumar a utilizar um uniforme padronizado, perceber as estruturas hierárquicas e aprender a respeitá-las, reconhecer um quadro de horário similar ao que encontrará em seu regime de trabalho (entrada, alimentação, banho de sol, saída). Depois de tantos anos de repetição, finalmente incorporarão a disciplina necessária para serem bons cidadãos, seja para aqueles que serão competidores no mercado de trabalho, seja para aqueles que serão jogados no sistema penitenciário. Aqueles que forem capazes de melhor assimilar o conteúdo ensinado serão aproveitados nas funções mais qualificadas, selecionados pelo rolo compressor dos processos seletivos, seja para um ensino superior, seja para um curso técnico. Ainda assim, para parte destes não há nenhuma garantia de que ocuparão uma vaga no emprego para o qual estão se formando. 

Muito provavelmente, os mais bem-sucedidos serão aqueles que melhor corresponderem as expectativas da burocracia escolar, ou seja, aqueles que competirem melhor pelas melhores notas. Precisam se destacar frente a seus colegas, lutar pelas melhores oportunidades. Devem puxar o saco dos melhores professores, obedecendo e aceitando tudo aquilo que disserem, ainda que não concordem. Precisam agarrar com gratidão as bolsas de estudo e incentivos, que são oferecidos a poucos e negados a tantos. Devem pensar em si mesmos, da maneira mais individualista possível, sabendo que muitos serão deixados para trás. Além disso, alguns estudantes já saem na frente nessa disputa, seja por terem nascido em uma família bem estruturada, seja por terem frequentando as melhores escolas, sem precisar trabalhar para garantir seu próprio sustento ou por não terem sofrido nenhum tipo de discriminação.

Apesar de toda visão negativa que tenho deste sistema educativo, seria incoerente defender que os estudantes não devam lutar por uma qualificação mínima para o mercado de trabalho. Caso não o façam, estarão sendo deixados para trás nesta corrida pela existência. Todos estamos metidos neste jogo sujo e devemos encará-lo como uma necessidade da qual não podemos fugir de imediato. Porém, é uma grande ilusão acreditar que a escola formal representa os interesses humanos gerais. Defender que a escola pública pertence a comunidade significa cair em uma ilusão perigosa, de que a coisa pública pertence a sociedade civil. A coisa pública nada mais é do que uma coisa estatal e, como tal, está sujeita aos interesses políticos das classes que dominam o Estado. Este, por sua vez, nunca poderá ser o representante do interesse geral, porque é justamente o fruto da divisão da sociedade em classes sociais.

Nada disso significa que a educação, enquanto uma atividade humana, não possua um potencial emancipador. Toda luta política exige uma elevação da consciência daqueles que tomam alguma iniciativa em direção a mudança social. Todavia, não se trata de uma formação teórica que preparará o indivíduo para a luta prática. É necessário que a atividade educativa revolucionária seja simultânea ao processo de luta política. Na verdade, tal atividade só adquire significado se estiver diretamente ligada a luta política da classe trabalhadora. Isso significa que não é uma educação “emancipadora” que impulsionará a luta política revolucionária. Ao contrário, apenas quando o proletariado assumir a luta em suas mãos em um processo generalizado, estando conscientes de si enquanto classe e dos seus interesses revolucionários, criarão a necessidade de uma educação que prepare o seu espírito para este projeto político. 

Tal como já ocorreu em movimentos revolucionários anteriores, uma educação libertadora poderá se desenvolver nos mais diversos meios, seja através dos meios de comunicação necessários para uma propaganda revolucionária, seja através de círculos de discussão, debates ou manifestações artísticas. Além disso, processos educativos se desenvolvem através da própria inserção na luta política, por exemplo, através da participação nas assembleias e nos órgãos de gestão (conselhos e comitês) da produção da riqueza socialmente produzida pelos trabalhadores. Tudo isso forjará a consciência destes indivíduos para os desafios a que se propuserem.

Tudo isso, evidentemente, faz surgir uma questão crucial: se não é a própria consciência que impulsionará os processos de luta, o que será? Certamente há algum elemento mais ou menos consciente no início de toda luta política, porém ela se desenvolve simultaneamente ao desenvolvimento desta luta. Dificilmente se desenvolve anteriormente, enquanto as relações sociais dominantes estiverem imperando sobre a vida cotidiana alienante dos indivíduos. Para romper a normalidade e enfrentar os riscos de uma luta política é preciso que a grande maioria da classe trabalhadora considere isso a única opção. As próprias necessidades materiais são o principal motor de toda luta política. A partir do momento em que o cotidiano se torne insuportável, o proletariado enquanto classe percebe a luta como algo cada vez mais urgente. Ao experimentar esse combate, tira cada vez mais lições deste processo, percebendo a necessidade de se educar para essa luta. Estes ciclos revolucionários geralmente se estendem por anos e, em meio a vitórias e derrotas, formam uma nova consciência de classe. Enquanto socialistas, devemos contribuir para este combate. Evidentemente existem altos e baixos neste processo. Não vivemos um momento de lutas massivas, mas podemos contribuir minimamente em toda luta autônoma que surgir espontaneamente por fora dos sindicatos e instituições similares, que sempre tendam dirigir a luta das massas para atender os interesses da burocracia sindical.


A comunidade escolar do Nilton Gonçalves, desde que decida permanecer em luta, deve considerar todas essas questões. Independentemente do resultado do movimento, precisa ter consciência de que a luta da classe trabalhadora não se esgotará tão cedo. Caso queira tirar as lições desse processo, deve encontrar formas de dirigir sua própria luta. Delegar essa direção para entidades ditas representativas, além de ser arriscado, pouco contribuirá para o amadurecimento da maioria dos os indivíduos envolvidos. Este amadurecimento é essencial para processos de luta no futuro. Acima de tudo, precisam ter consciência de que a escola pela qual estão lutando é um dos órgãos de dominação do Estado, responsável pela formação dos cidadãos e trabalhadores adequados para a sociedade desigual na qual vivemos. A luta pela defesa desse modelo escolar representa o desejo de se manterem competitivos no mercado de trabalho. Mas também devem ter consciência de que se manterem qualificados não abrirá vagas de emprego em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Superar esse estado de coisas depende necessariamente da superação dessa competição entre o proletariado, que deve se organizar coletivamente enquanto classe. Caso desejem construir uma educação verdadeiramente emancipadora, não devem esperar que isso venha de cima, do Estado, ou seja, do próprio inimigo. Uma educação emancipadora só pode ser um produto daqueles realmente interessados nessa emancipação: a própria classe trabalhadora.




[i] O desemprego não é um mero defeito do sistema capitalista, pelo contrário, faz parte de sua estrutura. Sobre esse assunto, ler o artigo “Desemprego: as pessoas por detrás dos números”, publicado pelo Jornal Faísca em dezembro de 2014, clicando aqui.